MULHERES QUE FIZERAM E FAZEM ACONTECER

Pensamento Feminista Negro

Leitura da obra – Introdução e Prefácios


(Primeira e Segunda Edição)
A leitura da introdução e dos prefácios da obra de Patricia Hill Collins parte, para mim, de uma pergunta central — inclusive orientadora do meu TCC — que atravessa todo o livro: que tipo de conhecimento está sendo criticado e quem foi historicamente autorizado a produzi-lo?


1. Que tipo de conhecimento Collins está criticando?

Ao lançar mão das noções de interseccionalidade e matriz de dominação, Patricia Hill Collins demonstra como raça, classe, gênero e sexualidade constituem sistemas de opressão que se retroalimentam historicamente. O conhecimento criticado por Collins é aquele que se apresenta como universal, neutro e objetivo, mas que, na prática, foi construído a partir de experiências muito específicas — sobretudo masculinas, brancas e elitizadas — invisibilizando outras formas de saber e existência.
Esta obra é, sem dúvida, um clássico dos estudos feministas. E, a partir da leitura atenta, compreendo ainda mais como Collins, enquanto escritora e mulher negra, traz em sua obra o que há de mais clássico e, ao mesmo tempo, de mais atual no pensamento feminista negro. Para mim, esta obra se tornou, nas últimas décadas, não apenas um clássico, mas um marco histórico, justamente por ser uma produção escrita que trata dos anseios e das oportunidades de expressão das mulheres negras, tanto no espaço público quanto no comunitário.
Nesse sentido, o pensamento feminista negro estadunidense se apresenta como uma teoria social crítica, revelando as produções intelectuais das mulheres negras que sempre existiram, mas que foram sistematicamente silenciadas. Collins oferece, acima de tudo, oportunidade de acesso e de expressão, mostrando como a interseccionalidade pode — e deve — informar diversas áreas do conhecimento, desde a sociologia enquanto ciência até a formulação de políticas públicas, enfatizando sua importância central na luta por justiça social.


2. Quem foi historicamente autorizado a produzir conhecimento?
Nós sabemos quem foi historicamente invisibilizado — e também quem pôde produzir, escrever e falar. Collins, ao tratar o pensamento feminista negro como uma teoria social crítica, revela justamente as produções intelectuais das mulheres negras que vivem em uma sociedade estruturalmente excludente.
Ao fazer isso, a autora desloca o olhar e afirma que mães, donas de casa, trabalhadoras também ocupam uma posição legítima de fala, de respeito e de autoridade intelectual. Essas mulheres devem ter a oportunidade de serem ouvidas, seja no ambiente acadêmico, seja em outros espaços de direito e decisão.
Nesse sentido, Collins é bastante direta ao afirmar que essas mulheres — sejam escritoras, musicistas, atletas, ativistas ou não — produzem conhecimento a partir de suas experiências políticas, sociais e históricas. O saber que elas constroem não é menor, nem secundário. Pelo contrário: trata-se de uma necessidade e de um direito que esse conhecimento seja reconhecido, legitimado e socialmente valorizado.


3. Por que raça, gênero e classe aparecem articulados desde o início da análise?
Ao apresentar as noções de classe, raça e gênero convivendo enquanto processo, Collins pensa essas categorias de forma interseccional, evidenciando-as como uma matriz de dominação. A autora demonstra, mais uma vez, como raça, classe, gênero e sexualidade constituem, histórica e estruturalmente, sistemas de opressão que se retroalimentam.
Esse movimento forma um processo contínuo, um “ir e vir” quase infindável, que se sustenta exatamente porque essas categorias não atuam isoladamente. Por isso, há uma necessidade e urgência em olharmos para elas de forma articulada: uma se completa na outra, em um processo dialético e histórico, que estrutura as desigualdades sociais e, ao mesmo tempo, aponta caminhos para sua transformação.

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